Londres: redescubra a capital do mundo

Londres: redescubra a capital do mundo
O famoso escritor inglês Samuel Johnson disse, certa vez, que quem se cansa de Londres é porque se cansou da vida. E ele estava certo. Mesmo tão visitada, há sempre algo novo (ou antigo) para ser visto na cidade de todos os povos

Vista de longe, Londres parece tranquila e serena
Vista de longe, Londres parece tranquila e serenaPARA VER E ADMIRAR
A megalópole reserva lugares de contemplação

Nas primeiras horas de um domingo, dia 2 de setembro de 1666, um incêndio se inicia na rua Pudding Lane, na casa de Thomas Farriner. O forte vento e a estrutura de madeira das construções ao redor espalham rapidamente o fogo. Em poucas horas, a situação é incontrolável e o incêndio espalha-se de modo avassalador. A região mais antiga de Londres, conhecida como The City, arde em chamas por cerca de três dias. A fúria do fogo devasta centenas de ruas, queima aproximadamente 13 mil casas, incluindo a catedral de Saint Paul e outras 87 igrejas, deixando em torno de 100 mil pessoas desabrigadas. Em choque, os moradores da cidade vivem um pesadelo sem precedentes.

Os londrinos jamais esquecerão aquela que é a maior tragédia local. Cinco anos após o devastador incêndio, em 1671, o arquiteto Christopher Wren inicia a construção da obra que simbolizará o renascimento de Londres. Erigida a 61 metros de distância do exato local onde o fogo começou e com os mesmos 61 metros de altura, a coluna dórica batizada de The Monument permanece sendo, no limiar do terceiro milênio, o maior símbolo de uma cidade que não se rende.

“Gosto de subir aqui. Não é qualquer pessoa que diria isto, mas eu realmente gosto de enfrentar todas essas escadas. Faz bem a minha saúde”, conta, sorrindo, Michele Jabir, a funcionária que trabalha no The Monument e que todos os dias vai ao topo da coluna avisar os turistas que o horário de visitação acabou. São 361 degraus, em forma de espiral, que vão do solo ao alto da obra.

Ao atingir o terraço, a recompensa é uma vista magnífica de Londres, incluindo observar a icônica Tower Bridge de um ângulo inusitado. Mais do que isso, é curioso constatar os enormes prédios de arquitetura moderna hoje existentes justamente na região mais antiga da cidade. Em um dia de vento forte, tem-se a nítida sensação de que a coluna de Christopher Wren, de mais de 300 anos, balança suavemente.

Longe dali, no alto da colina do parque de Pillrose Hill, o espanhol José Fernandez, de 23 anos, observa o anoitecer de uma das maiores cidades do mundo. Situado ao norte de Londres, o parque proporciona uma vista ampla da cidade. No longínquo horizonte de prédios e luzes, é possível distinguir alguns dos seus principais cartões-postais, como a catedral de Saint Paul, a torre da Abadia de Westminster ou a roda-gigante London Eye. “É um lugar que muitos nem imaginam existir. A primeira vez que aqui cheguei, fiquei surpreendido”, diz José. Garrafa de vinho na mão, olhar perdido observando a silhueta da grandiosa capital, ele continua: “Quando começa a escurecer, o movimento dos carros diminui, apenas as luzes dos prédios permanecem acesas, a cidade vai parando, como se acabasse a pilha.”

Ao nosso lado, alguns fotógrafos ajeitam suas câmeras nos tripés; jovens brincam com uma bola de tênis, enquanto José recolhe a sua garrafa de vinho e despede-se. Ao longe, a cidade há mais de 2 mil anos batizada de Londinium pelos romanos vai se apagando, imergindo em uma escuridão silenciosa.

• The Monument
• Pillrose Hill; metrô linha Northern, estação Chalk Farm

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Roberto Seba
Operários da reconstrução de Londres: pioneiros do Watling
Operários da reconstrução de Londres: pioneiros do WatlingPUBS HISTÓRICOS
Séculos de história, litros de cerveja

Ingleses bebem. E não é pouca coisa. Esqueça o tão propalado chá das cinco, nada disso. Se você quer saber como eles vivem, é preciso ir aonde eles vão. E ao longo dos incontáveis séculos, nenhuma outra instituição tem representado com tanta eficiência o mais genuíno espírito inglês do que seus pubs. É ali, com um copo de cerveja na mão (chamado de pint, e que representa a inocente medida de pouco mais de meio litro), que os súditos da rainha exorcizam seus demônios do dia a dia e revelam suas mais íntimas aspirações. Há muitos pubs em Londres. Mas há os especiais: os históricos.

Numa viela estreita que parte da Fleet Street, no bairro conhecido como The City e que representa o centro financeiro de Londres, um caminho acanhado leva até as paredes e a porta de cor preta do Ye Olde Cheshire Cheese. Logo na entrada, um cartaz amarelado informa que o pub foi reconstruído em 1667, durante o reinado de Charles II, e atravessou o tempo ao longo dos reinados de James II, George I, George II…e por aí vai…

A data da reconstrução do pub marca o ano seguinte ao grande incêndio que devastou Londres e queimou boa parte da cidade. A data da primeira construção? Ninguém sabe. “It’s old, very old”, diz, simplesmente, o barman Jason Mc Cormick, que atende no primeiro dos cinco níveis do pub. O que todos sabem é que o Ye Olde Cheshire Cheese era um dos locais prediletos do escritor Samuel Johnson, um dos maiores nomes da literatura inglesa do século 18. Cem anos depois, pelas mesas de madeira escura e ambiente de teto baixo, passaram outros ilustres personagens da literatura britânica, como Alfred Tennyson e Charles Dickens. Em tempos mais recentes, Theodore Roosevelt e sir Arthur Conan Doyle também tomaram suas pints por aqui.

Assim como naquela época, o chão do Cheshire Cheese ainda mantém a antiga tradição de ser coberto de serragem. Segundo consta, para absorver a cerveja porventura derramada no solo – além do sangue das brigas, diz-se de brincadeira. O andar no terceiro subsolo do pub é destinado às refeições, servindo bons pratos da gastronomia britânica – tão mal falada, mas que reserva surpresas –, como a famosa cottage pie, por míseras cinco libras.

Em outro ambiente do pub, nas primeiras horas da tarde, homens com pinta de executivos estendem o almoço e emendam em uma reunião de trabalho. Ingleses que são, copos de cerveja já compõem a mesa, entre papéis, pastas e documentos. Observo-os e percebo um ar de seriedade em seus gestos e semblantes de homens de negócios. A reunião parece ser tão importante quanto o líquido precioso da pint que eles sorvem com volúpia.

Não muito distante dali, entro em outro pub histórico, o Ye Olde Watling, situado em uma das ruas mais antigas de Londres, a Watling Street – que integrava uma velha rota romana que partia da cidade de Dover, às margens do Canal da Mancha, e seguia por Canterbury, cruzava Londres, até terminar em Wroxeter, a antiga vila romana de Viroconium. O Ye Olde Watling foi construído em 1668 e sua existência também remete ao Grande Incêndio de 1666, pois o pub foi erguido para hospedar os trabalhadores que estavam reconstruindo a catedral de Saint Paul, devastada pelo fogo.

Naquela época, sir Christopher Wren, o grande arquiteto responsável pelas maiores obras na reconstrução de Londres, instalou seu ateliê de trabalho com os projetos da nova Saint Paul no segundo andar da casa. Boa parte das toras de madeira de navios antigos usadas na construção da casa permanecem expostos.

Por volta das 4 horas da tarde, o movimento já é grande. Quase todos os clientes são homens, a maioria ainda com roupas de trabalho e um ar de quem quer esquecer os compromissos e dedicar-se ao que realmente importa: beber cerveja com os amigos. Luminárias pendendo do teto iluminam o ambiente, auxiliadas pela luz natural que ainda entra pelas amplas janelas que circundam o pub. O piso, de madeira escura, combina com os balcões enegrecidos e as vigas pretas que sustentam o teto. O único colorido destoante surge das luzes atrás do bar, ressaltando os rótulos das bebidas. “Adoro esse emprego, adoro esse lugar”, afirma o barman Justin Sparks, há um ano e meio trabalhando no Ye Olde Watling. “Só o salário é uma porcaria”, completa.

Quando o fotógrafo Roberto Seba aponta sua lente para registrar o ambiente e seus frequentadores, um dos clientes exalta-se e o interrompe. “Não posso aparecer bebendo num pub às 4 da tarde”, exclama. Ora, nada mais tipicamente inglês do que beber com os amigos em um pub às 4 da tarde. Vergonha do quê?

• Ye Olde Cheshire Cheese, Wine Office Court, 145 Fleet Street
• Ye Olde Watling, 29 Watling Street

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Roberto Seba
O bar Ain�t Nothing But… tem blues de alta qualidade
O bar Ain�t Nothing But… tem blues de alta qualidadeONDE A MÚSICA FAZ HISTÓRIA
Quando o cliente mais importante é o som

Basta entrar no Bar 190 para perceber o ambiente sofisticado. A iluminação é discreta, com velas e abajures pequenos. Os sofás e poltronas são de couro, e as paredes de madeira de carvalho escura. Próxima à entrada, amplas janelas vão do chão ao teto, uma referência de luz em contraste com o ambiente interno escuro. Do lado de fora, uma grande bandeira do Reino Unido tremula na entrada do Gore Hotel, inaugurado em 1892, e em cujo andar térreo localiza-se o bar.

A música ambiente é de alto nível, entre jazz, soul e blues. Mas foi um outro ritmo, tipicamente inglês, que abriria as portas do Bar 190 para o mundo e o tornaria tão simbólico quanto o próprio refinamento do hotel no qual está instalado: o rock. Em dezembro de 1968, os integrantes da banda Rolling Stones chamaram seus convivas e a mídia para um grande banquete festivo, com o intuito de promover o lançamento do álbum Beggar’s Banquet – que logo depois se tornaria um dos mais aclamados discos do grupo.

As referências àquela memorável noite são bem evidentes. Logo na entrada, uma foto emoldurada mostra Mick Jagger abraçado ao companheiro Brian Jones nas dependências do local, ambos cobertos de bolo, instantes após o vocalista atirar torta para todos os lados. “O que me chamou a atenção daqui foi a atmosfera do lugar”, conta o capixaba Juliano Comerio, há sete anos morando em Londres e gerente do Bar 190. “Temos vários tipos de clientes, como o casal que quer ficar sozinho, o homem de negócios numa reunião ou aquele que senta no balcão do bar e quer conversar”, explica.

Desde que assumiu a gerência, Juliano tem feito um trabalho de resgatar a antiga clientela do local, além de atrair aqueles que vão aos shows do Albert Hall, ali perto. Os Stones não costumam aparecer por aqui, mas quem volta e meia senta no balcão e gosta de tomar um drinque é o ex-vocalista do grupo Oasis, Liam Gallagher. “Ele gosta de ficar quieto, na dele, não é de conversar muito. Mas é simpático, se alguém chega para tirar uma foto, ele atende”, diz o brazuca que coordena o bar que os Rolling Stones eternizaram.

Em outro templo da música de Londres, os frequentadores fiéis do Ain’t Nothin But…Blues Bar não acreditaram quando em uma noite de sábado, em julho de 2010, surgiu, cercada por seguranças, a cantora Amy Winehouse. Levemente “alta”, a super star deu uma canja no intimista palco do acanhado bar de blues. O público presente foi ao delírio e o vídeo da breve apresentação hoje está na abertura do site do Blues Bar.

Localizado no bairro Soho, o Ain’t Nothing But… é pequeno e costuma estar sempre lotado. O palco fica espremido entre as mesas, criando uma atmosfera intimista entre os músicos e o público. Visto de fora, nada indica a alta qualidade musical que acontece ali dentro, sete dias por semana. “Esse bar existe para a música. Muitos outros usam a música para fazer outros tipos de negócios. Aqui não, a música está no centro de tudo”, diz Niall Kelly, figura presente quase todos os dias da semana no palco do local, seja como músico ou como apresentador.

E ele não está exagerando. Com certeza, não é com o conforto do cliente que o bar se preocupa. Ali dentro, o blues é celebrado de modo intenso, quase religioso, por músicos conhecidos ou não. “O blues é acessível, você não precisa entender, você dança. E quando todos estão conectados, então temos uma grande noite”, define Niall, depois de mais uma intensa jam session de segunda-feira.

• Bar 190
• Ain’t Nothin But…Blues Bar

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Roberto Seba
Mercado é local ideal para fazer uma refeição boa em ambiente de tradição
Mercado é local ideal para fazer uma refeição boa em ambiente de tradiçãoTRADIÇÃO À MESA
Há sete séculos alimentando os londrinos

Logo ao chegar, a profusão de aromas que exala pelo ambiente é a prova definitiva do renascimento gastronômico experimentado na Inglaterra nos últimos anos, impulsionado por grandes chefs como Jamie Oliver e Gordon Ramsay. Embora esteja localizado no mesmo lugar desde o século 13, na margem sul do rio Tâmisa, quase embaixo da ponte mais antiga e importante da cidade, a London Bridge, o Borough Market vive, atualmente, dias de saborosa agitação.

Barracas e tendas oferecem os mais variados produtos alimentícios. Não fosse comida, e o Borough pareceria mais um grande mercado árabe de tapetes. Há de tudo, entre pratos para serem degustados na hora (ótima opção para comer bem e barato) e produtos para complementar a despensa de casa. A miscelânea é enorme, e bancas de escargot estão ao lado de azeites de oliva espanhóis, que por sua vez ficam próximos a uma banca de doces e tortas, que estão junto a uma tenda de presunto parma italiano, ou compotas francesas, quase diante de outra que vende peixes da Escócia, diversos cortes de carne, merengues gigantes e até queijos artesanais.

“Amo esse lugar. Estou aqui por causa da história do mercado, um dos mais antigos de Londres”, atesta Ned Palmer, desde o ano 2000 trabalhando às sextas e sábados no Borough, vendendo o premiado queijo da marca Gorwydd Caerphilly, produzido de modo artesanal por uma família no País de Gales. “No começo não sabia nada de queijo e, de tanto perguntar, meu chefe me mandou estudar. Hoje, é até estranho lembrar do tempo em que eu não entendia de queijo.”

Ned explica que a presença de tendas vendendo produtos para serem comidos na hora é uma novidade, e foi acontecendo naturalmente. Em sua origem, o Borough Market era uma feira de alimentos frescos e, por essa razão, verduras e legumes seguem sendo vendidos, ainda que cercados por barracas de paella, vinhos franceses, prosecos italianos, tortas inglesas e até ostras. O mercado, outrora, já foi elitista. “No começo eu vendia esse queijo para pessoas de classe média, hoje não, é mais popular. Já o turista pode ser um cliente bom ou ruim, depende, pois muitos não compram pedaços grandes”, pondera Palmer.

De um jeito ou de outro, após mais de 700 anos de existência, as mudanças de público e produtos parecem ser inevitáveis. Entretanto, o louvor à boa comida nem mesmo o tempo demonstra ser capaz de mudar.

• Borough Market

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Roberto Seba
Show no Bar Mahogany, pub que originou o Wilton�s Music Hall
Show no Bar Mahogany, pub que originou o Wilton�s Music HallHISTÓRIA MUSICADA
O mais antigo music hall em atividade do mundo

O pequeno grupo de visitantes sobe a rangente escada de madeira. As paredes ao redor revelam uma casa antiga, com tijolos expostos e uma pintura precária cobrindo apenas determinados pontos. O chão é composto por blocos de cimento e o teto expõe vigas de madeira que denunciam o passar do tempo. A guia segue na frente e dirige-se a uma porta. Uma expectativa muda recai sobre o grupo. Quando a porta é aberta e, um a um, os visitantes entram, a primeira e mais tola impressão é a de quem atravessa um portal do tempo em algum filme de ficção científica ou desenho animado.

A primeira visão do Wilton’s Music Hall parece exigir um silêncio que oscila entre o respeito sepulcral e o arrebatamento que abafa qualquer tentativa de fala. O ambiente em forma de uma nave de igreja o torna de algum modo venerável, além de garantir a impressionante acústica das vozes e dos instrumentos dos artistas que ensaiam no palco. Escondido em uma viela no East End de Londres, o prédio é o mais antigo Music Hall do mundo ainda em atividade.

Construído nos fundos de cinco casas, o Wilton’s Music Hall nasceu como uma extensão de um pub, o Prince of Denmark. Nas primeiras décadas do século 19, os próprios frequentadores do pub iniciaram a tradição musical do lugar, bebendo e cantando, bebendo e tocando, bebendo e dançando. Em 1850, o comerciante Johnson Wilton comprou o local e o transformou em tal qual o conhecemos hoje. Nove anos depois, o Music Hall foi inaugurado e passou a ser frequentado pelos maiores artistas do londrino bairro de Covent Garden, apresentando-se em performances musicais, óperas, shows de balé e circo.

“Johnson Wilton reformou o hall com o objetivo muito específico de ser um local dedicado à música. Naquela época, a decoração e a iluminação eram muito diferentes. As paredes eram cobertas por espelhos e o segundo andar de papel machê”, explica a historiadora e guia do Wilton’s Music Hall, Carole Zeidman. O local viveu seu apogeu artístico por breves 20 anos, até que, em 1880, o novo dono não conseguiu renovar a licença por não conseguir cumprir as exigências de segurança relativas a incêndios. A partir de então, a mais festejada casa artística de Londres foi assumida por uma igreja Metodista, que permaneceu no local até 1956. Durante esse período, o Music Hall foi, inclusive, utilizado como abrigo durante os inclementes ataques aéreos sofridos pela cidade durante a Segunda Guerra Mundial.

Na década de 1960, o Wilton’s foi salvo da demolição pela London Music Hall Protection Society, até que, em 1997, a artista Fiona Shaw apresentou a aclamada produção The Waste Land, a primeira desde 1880. Em 2004, o Music Hall passou a ser gerido por uma fundação filantrópica e, desde então, o local tem sido usado para apresentações de teatro, musicais, óperas e locações de vídeo. Às segundas-feiras, o pub que deu origem a tudo, agora chamado de Mahogany Bar, recebe seus clientes com shows que variam do jazz ao blues.

Sentado em um sofá, bebendo cerveja, e apreciando a boa música, exatamente como faziam os primeiros frequentadores do mais antigo music hall do mundo, a sensação experimentada é a de quem, por instantes, aproxima-se da inebriante oportunidade de fazer parte da história artística de Londres.

• Wilton’s Music Hall

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Roberto Seba
The Temple: tranquilidade e silêncio para quem procura
The Temple: tranquilidade e silêncio para quem procuraO SANTO GRAAL
A misteriosa igreja a que poucos concedem atenção

O ambiente calmo e sereno que caracteriza o emaranhado de vielas da região conhecida como Middle Temple Hall e The Temple, normalmente frequentada apenas por estudantes de direito que habitam as residências oficiais e escritórios da Corte de Justiça britânica, mudou repentinamente nos meses de 2006 seguintes ao lançamento do controverso filme O Código Da Vinci. A transformação deveu-se, exclusivamente, a uma cena da trama de Dan Brown filmada no interior da igreja The Temple. Nela, o personagem de Tom Hanks, Robert Langdon, entra na igreja à procura de uma pista que o leve ao tão procurado Santo Graal.

Desde então, e durante algum período, hordas de visitantes, curiosos e estudiosos interessados nas polêmicas levantadas pelo filme passaram a vir conhecer essa pequena igreja, muito antiga, construída em 1161, escondida em uma área normalmente fadada a ser pouco percebida pelos viajantes em uma cidade com tantas atrações. “Depois do filme, o número de visitantes aumentou bastante. Mas agora, já algum tempo depois, está voltando ao normal”, relata Ruth Jones, atualmente trabalhando como voluntária, depois de atuar por cerca de 30 anos na biblioteca do templo.

Com um horário de visitação restrito, os visitantes a que Ruth se refere e que hoje seguem interessados em adentrar nessa intrigante igreja, por certo nunca precisaram das polêmicas de O Código Da Vinci para virem até aqui. Há oito séculos sendo a sede londrina de uma das organizações religiosas mais secretas e poderosas da Igreja Católica, a dos Cavaleiros Templários, mistérios não faltam ao redor da história destes monges guerreiros que surgiram como protetores dos peregrinos que rumavam à Terra Santa, sempre mantiveram independência diante do Vaticano, enriqueceram negociando terras e influenciaram reis e rainhas, até serem acusados de traidores, perseguidos e mortos em diversos países da Europa no século 14. “Hoje, os visitantes vêm aqui por diferentes razões. Uns se atraem pela arquitetura, mas a maioria se detém nas efígies. Há ainda outros que gostam de admirar as cabeças”, revela Ruth, apontando para os mais de 50 curiosos rostos esculpidos no salão redondo da igreja, a mais antiga parte do templo. Ali também permanecem no solo as oito intrigantes efígies de antigos mestres templários enterrados no local. Foi ao redor delas que o personagem de Tom Hanks procurava a pista para encontrar o Santo Graal. Todavia, uma vez ali dentro, envolvido pela atmosfera local, qualquer um sente-se arrebatado pelo clima de mistério que paira no ar. Nem precisava do Dan Brown.

• The Temple

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Roberto Seba
Sentidos aguçados e muito som no British Experience Music
Sentidos aguçados e muito som no British Experience MusicAS DISTANTES DOCAS DE GREENWICH
Tecnologia e história distantes do centro da cidade

O visual é futurista. A primeira impressão ao entrar é a de estar em um centro de desenvolvimento tecnológico qualquer. O objeto de estudo ali retratado não é necessariamente novo, muito pelo contrário, mas a forma como está exposto impressiona pela modernidade. Em um ambiente de muitos painéis e luzes coloridas, o high-tech British Music Experience cumpre o que promete em sua proposta de levar o visitante não a um mero museu convencional sobre a música britânica. A ideia é fazê-lo viajar ao longo de uma das mais influentes músicas do mundo.

Para realizar essa jornada desde os primórdios do rock inglês até chegar aos dias atuais do pop de Britney Spears, o British Music Experience utiliza-se de muitos vídeos e objetos pessoais dos mais variados artistas. Uma jaqueta de David Bowie, um vestido de Victoria Beckham, uma guitarra de Jimmi Page, botas de Freddie Mercure, chapéus e camisas dos Beatles John, Paul, Ringo e George e uma infinidade de outros produtos estão ao alcance dos dedos, seguidos de explicações sobre curiosas histórias ao seu respeito.

Localizado no bairro de Greenwich, na Arena O2 – centro multiuso com restaurantes, cinema, teatro e casa de espetáculo – o espaço é dividido por décadas e a interatividade é o principal aspecto do local. Tudo, absolutamente tudo o que você tocar, seja para ver um vídeo ou escutar uma informação, pode ser “gravado” em seu próprio bilhete de entrada e posteriormente visto novamente no conforto de sua casa. Nesse sentido, uma das principais atrações é um amplo estúdio Gibson montado à espera dos visitantes músicos ou aspirantes. Guitarras, baixos, baterias e teclados podem ser usados sem dó. Basta pegar a palheta ou empunhar a baqueta e ir em frente. Sem esquecer de gravar no bilhete para ouvir depois.

Ali perto, na outra margem do rio Tâmisa, em meio a prédios de arquitetura moderna, com muitos vidros espelhados, nada parece indicar que essa é uma das regiões mais antigas de Londres: as Docas. Atingida inúmeras vezes por incêndios em séculos passados e, mais recentemente, devastada pelos bombardeios da aviação alemã durante a Segunda Guerra Mundial, entre seu conjunto de canais a cidade nasceu e se desenvolveu, tornando-se uma das maiores potências econômicas do mundo.

A história das Docas e, consequentemente, a própria história da cidade, é contada em seu interessante museu. “Gosto de vir aqui nos finais de semana. É um ótimo museu e, como está longe do centro, muitos não vêm até aqui”, diz Paul Mawdsley, executivo do banco Barclays Capital. Olhando ao redor, não é difícil perceber que ele tem razão, haja vista o estilo dos visitantes, mais parecidos com moradores do que com turistas. Conhecer a renovada Docas é um bom começo para redescobrir Londres.

• British Music Experience
• Museu das Docas

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Roberto Seba
Há sempre algo novo a ser visto em Londres
Há sempre algo novo a ser visto em LondresLONDRES: PARA CHEGAR LÁ

A capital inglesa tem sempre algo a ser descoberto, não importa o quanto você já a conheça. Siga nossas dicas e aproveite uma das cidades mais interessantes do mundo

DICAS BÁSICAS

Como chegar

A TAM e a British Airways têm voos diretos partindo de São Paulo ou Rio de Janeiro para Londres, com tarifas a partir de US$ 900, aproximadamente. Com conexões, a Swiss, Air France e Lufthansa são boas alternativas, muitas vezes com valores até mais vantajosos.

Para passear

O sistema de metrô da cidade é muito eficiente e você provavelmente não irá precisar de outro meio de transporte. Apenas preste atenção que muitas vezes vale a pena pegar um ônibus e admirar a cidade, ao invés de ficar o tempo todo embaixo da terra. O cartão recarregável Oyster é a grande facilidade, podendo ser obtido nas estações de metrô e válido nos ônibus, metrôs e trens. Você pode carregá-lo com qualquer valor e depois basta ir debitando nas catracas eletrônicas.

Câmbio

A situação já esteve muito pior para o viajante brasileiro, quando £ 1 valia R$ 4 ou até mais. A cotação agora gira em torno de £ 1 valendo cerca de R$ 2,50. Na prática, os preços não assustam tanto quem vive nas grandes cidades brasileiras, como São Paulo, por exemplo.

TRÊS MANEIRAS DE VIAJAR…

Com economia

DORMIR

Com uma proposta de oferecer uma hospedagem semelhante a um flat e preços similares ao de um bed & breakfast, o Base2Stay tem conquistado adeptos. O hotel não oferece café da manhã, mas há cozinha nos quartos. Diárias para uma pessoa a partir de £ 95 e para casal por £ 113.

COMER

Além do Borought Market, um outro mercado de rua com preços baratos (mas sem o mesmo estilo) é o de Camden Town. Em meio à balbúrdia local, as tendas chinesas são boas opções.

PASSEAR

Experimente caminhar na margem sul do rio Tâmisa (south bank), começando em frente ao prédio do Parlamento e seguindo até a London Bridge. Você verá, do outro lado, alguns dos grandes monumentos da cidade.

Com conforto

DORMIR

O Bed & Breakfast Belgravia é uma ótima opção em um típico modelo inglês de hospedagem. Bem localizado, tem funcionários simpáticos, quartos confortáveis e um belo café da manhã. Até maio de 2012, a tarifa de um quarto simples era £ 99 e um duplo £ 135.

COMER

Situado no bairro Soho, o Busaba Eathai serve ótimos pratos da cozinha tailandesa, como o noodles com camarão, manga, amendoim e carne de caranguejo por £ 8,90.

PASSEAR

Admirar Londres a partir de um barco no rio Tâmisa permite um novo olhar da cidade. Embarque na estação London Eye e siga até Greenwich, passando pelas principais atrações (£ 5,50).

Com luxo

DORMIR

A decoração do The Kensington Hotel é primorosa, o atendimento faz o cliente sentir-se um lorde e os melhores quartos fazem você ter vontade de ficar ali para sempre. As diárias de um quarto duplo variam entre £ 165 e £ 400, conforme a classificação.

COMER

Sem precisar sair do Kensigton Hotel, saboreie um clássico chá da tarde em um dos salões do local. Delicie-se com uma boa variedade de sanduíches, bolinhos, canapés, frutas, doces e, claro, chás, tudo servido com muita classe e estilo por £ 23.

PASSEAR

Curtir Londres do alto, em um passeio de helicóptero, é um luxo para poucos bem-aventurados. A agência o leva de carro até a cidade de Oxford e de lá o tour inicia pelo ar no sentido contrário, sobrevoando as principais atrações da capital inglesa.